Para finalizar nossa leitura de O Complexo de Portnoy, convidamos Thiago Blumenthal para comentar um pouco da obra de Philip Roth, do judaísmo e do romance que estamos lendo. Thiago é editor-assistente da Publifolha e mestre em literatura judaica pela USP com uma dissertação a respeito de Franz Kafka. Segue a sua contribuição:
"The Raskolnikov of jerking off" ou, em uma tradução aproximada, "o Raskolnikov da masturbação". Agradar aos pais em público e sentir prazer masturbando-se. Desejos que causam repúdio à consciência e a própria consciência que causa repúdio aos desejos. Sentimentos e comportamentos antagônicos sempre pareceram fornecer à literatura de Philip Roth a condição (e a causa) para que seus personagens pudessem descobrir na sensação de culpa, no tormento à moda russa de Dostoiévski, a sua inevitável essência.
O problema, ou a subversão judaica, é quando essa angústia ultrapassa e ilude a última camada de sanções que são impostas por uma falta: o auto-humor. Em Dostoiévski, ainda que haja humor, paga-se por aquela transgressão no frio siberiano, em uma cela. O humor não se revela e nem procura redimir a personagem de sua culpa ou de sua terrível sensação de culpa. Mas quando Alex Portnoy, protagonista e narrador de O Complexo de Portnoy, relata ao seu terapeuta, doutor Spielvogel, que, ao mesmo tempo que era "the favorite lover" de sua mãe [sim, era o que sua mãe dizia ao telefone], também pretendia masturbar-se com uma fatia de fígado cru, qualquer sensação de culpa vai pro espaço e atinge níveis cômicos, só possíveis na tradição judaica, e mais especificamente iídiche.
Ao eleger um protagonista judeu de meia-idade, não só como eixo narrativo da história [a relevância do que se conta sobre ele] mas como autoridade narrativa [a relevância do ponto de vista sem isenção de quem conta], Philip Roth explora as possibilidades do humor judaico em sua via oral, direta, como em uma performance de um Lenny Bruce ou, mais recente, Jerry Seinfeld. Não se trata de reduzir a complexidade do livro ao mero humor ou às situações bizarras em que Portnoy se vê envolvido -- e como ele conta. Mais do que isso, o humor é a via pela qual a culpa e sua transgressão causadora se tornam deletérias o bastante para que se possa continuar sobrevivendo. Fosse o doutor Spielvogel, com sua provável dose de psicanálise extremada, que estivesse relatando o drama de Alex Portnoy, teríamos um humor mais cruel, mais crítico. Talvez mais implacável. Já diz o ditado judaico que só Deus pode rir da gente; quando outro ri, perde a graça.
A abrangência de motivos nessa obra de Philip Roth é extensa, mas une dois pólos principais: a judeidade americana na primeira metade do século 20 buscando identidade em uma terra de oportunidades, como uma desbravadora legião de Colombos (o Columbus da primeira publicação do autor), e um Édipo não resolvido. Não se resolve e se amplia. Dilata-se quando a feição trágica do herói de Sófocles que olha a Tebas e se pergunta: "Quem é o responsável por todo esse desastre?" ganha o sorriso amarelo e constrangido: "Oh meu Deus, fui eu mesmo". Como se Lenny Bruce fosse o Édipo e Tebas fosse Nova York ou Newark, tudo parece tender ao terror cômico.
Para citar uma outra referência judaica, como a mãe de Woody Allen que some em uma caixa de um truque barato de mágica e reaparece dias depois, enorme no céu. Um judeu com os pais vivos terá para sempre 15 anos.
terça-feira, 30 de junho de 2009
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